♡ Escolhas

“Encontrei, na fila do cuscuz, meu grande amor da sexta série. Passados exatos 20 anos, eis que o ardiloso destino resolve nos reunir, em torno de uma barraca de quitutes, na hora do lanche do meio da tarde, numa esquina qualquer do centro da cidade. Empenhada em acomodar duas fatias de bolo de cenoura numa embalagem em que uma só cabia, minha ex-paixão não chegou a me notar.

A bem da verdade, eu também demorei um tanto a perceber a singeleza da ocasião. Ocupado em impedir – através da força do pensamento – que a pessoa a frente também desejasse aquele derradeiro pedaço de cuscuz, a sambar solitário no tabuleiro quase vazio, como nos filmes não me dei conta de que ali estava quem já havia significado tanto para mim.

Não foram poucas, certamente, as tardes de domingo em que a melancolia se apoderou de meu ainda pouco experimentado coração, contando os minutos para que a primeira aula de segunda-feira não tardasse em chegar. Lembro das artimanhas que eu engenhosamente arquitetava, a fim de fazer parecer natural o fato de sempre nos sentarmos em carteiras próximas, e de como aqueles recados que ela escrevia em minha agenda com canetas de 10 cores eram lidos e relidos à exaustão.

Se não me engano, numa festa chegamos a dançar lambada, mas a emoção foi tão intensa que mal pude me concentrar nos pés, o que, obviamente, não me reservou o direito compulsório a outra dança. Fiquei ali, que nem bobo, olhando um colega conduzi-la pelo salão feito bonecão de posto de gasolina, desprovido que era de qualquer honra ou sentimento. Eu faria bem melhor, claro, se não estivesse apavorado.

Mas a timidez não permitiu à relação ter qualquer chance. Ao longo do ano letivo, o mais próximo que cheguei de transparecer meu amor foi através de uma providencial troca de fotografias com dedicatórias, antes que dezembro chegasse pondo fim a promissora amizade. Agora, ao vê-la subitamente depois de tanto tempo, não pude deixar de pensar: por onde andam estas fotos?

Eu até podia perguntá-la, mas o passo a frente, o toque no ombro, provavelmente culminariam, instantes depois, numa sem gracisse sem tamanho. Imaginem os dois, tendo em mãos suas respectivas guloseimas, engatando num papo-recapitulação a iniciar-se no longínquo verão de 1990, até os dias atuais. O protocolo nos exigiria falar dos colegas sumidos, de escolhas profissionais, relacionamentos amorosos, viagens, Copa do Mundo, filhos… uma pauta que não caberia.

E depois? Trocaríamos telefones ou e-mails, nos adicionaríamos no Facebook? Ou pior: “vamos combinar um reencontro da turma?!”. Optei por manter a compostura e o anonimato, deixando o acaso levá-la em meio a multidão, do mesmo jeito que a trouxe. Afinal, às musas da escola não cabem os fatos, as rugas ou a trivialidade de uma vida inglória. Seja o que for que tiver sido, prefiro não saber. Assim, permanecemos como naquele último dia de aula; tendo, ambos, todo um futuro brilhante pela frente.”

:

Por um futuro brilhante, de Bruno Medina
A foto é da Adara Sanchez

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s