♥ Do meu coração

O que faz você feliz faz alguém feliz?

Há anos venho querendo doar sangue. Dizia isso pra todo mundo mas, por algum motivo, só ontem decidi ir de verdade.

Combinei tudo com uma amiga: acordei cedo, peguei metrô, andei pelas ruas sujas do centro do Rio, fiz meu cadastro, escolhi doar para uma instituição que estava precisando muito, aguardei, passei por uma mini-entrevista, aguardei mais um pouco e, finalmente, entrei naquela sala gelada onde algumas pessoas apertavam uma bolinha enquanto seus sangues enchiam bolsas que salvariam vidas.

Estava nervosa, claro, e por mais forte que eu me considere, estava morrendo de medo! Mas de verdade?! Não dói nada. E dói menos ainda comparado ao que isso significa. Poder salvar uma vida é demais! É uma felicidade absurda e eu fiquei radiante o resto do dia!
Nem mesmo a minha mega queda de pressão tirou o meu sorriso do rosto.

De lá, ainda passeei com a amiga (que é amiga de infância, então é papo pra dar e vender!), vi filme com o marido, dei voltas no bairro com a minha cachorra princesa… Do que mais eu precisava?!

Terminei o dia ligando pra família toda dizendo: Doei sangue! Tô tão feliz :)
E ouvi do meu pai: “Mazal Tov! É um baita motivo pra se orgulhar mesmo!”

E isso só comprova a minha teoria: precisamos de muito pouco para sermos e fazermos alguém feliz.

O que faz você feliz?

Abrir a janela, comer na panela
viajar pela rua, o mundo da lua
ensaiar o passo, correr para o abraço
ou é andar descalço que faz você feliz?

Será que é cuidar da gente, cuidar do planeta,
fazer diferente, fazer melhor?
Ficar na cama (só mais um pouquinho!)
Comer um bolinho, fazer um carinho, se espreguiçar?
É isso que faz você feliz?

Ou é adivinhar desejo, estalinho de beijo
amar de paixão, arroz com feijão,
uma bela salada, miolo de pão?
Talvez a macarronada, brincar de nada,
fazer de tudo, fazer o que você sempre quis…
Me diz: o que faz você feliz
também faz alguém feliz?

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Texto da linda campanha do Pão de Açúcar com foto do Sam.

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♥ Do meu coração

O amor sempre vem

Dona vilma diz: Eu tô amando!

– Ah é?? Tá namorando?!

– Não!!! Eu tô amando.

E assim ela começou a me contar a história de amor entre ela e “um moreno gostoso que me chama de linda, de amor-da-minha-vida… o que mais posso querer aos 79?”

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foto

♥ Do meu coração

Linda

Eu tenho cada vez mais certeza que tenho cara de simpática, cara de filha sem mãe, cara de pessoa carente que quer conversar. Só pode!

Não costumo andar de ônibus, mas você pode apostar que, sempre que eu andar, alguém vai conversar comigo! E, esse alguém, provavelmete, vai ser uma pessoa do sexo feminino com mais de 50 anos.

Tenho ótimas histórias pra contar; de gente que me deu o telefone e o endereço da sua própria casa, me convidando para um lanche despretensioso a quem me disse que poderia ser minha 2ª mãe.

As pessoas costumam achar essas histórias engraçadas.
Eu acho fofas. Interessantes.

Sou uma apaixonada por pessoas. Gosto das suas histórias, das suas características.
Todos tão iguais e tão diferentes.
Adoro ouvir, dar atenção, perguntar, me envolver.

E de ônibus em ônibus, sigo meu caminho colecionando gente.

Hoje, claro, não poderia ter sido diferente.
No caminho de ida, uma conversa corriqueira: uma moça, baiana, que estava no Rio há cerca de 10 dias. Veio para resolver problemas burocráticos.
Uma história longa, meio confusa… sobre o carro dela.
Tentei ajudar, expliquei caminhos, dei dica dos melhores trajetos. Desejei boa sorte.
Ouvi sobre sua vida… amenidades… mas que sempre fazem o dia ficar mais leve.

Mas, às vezes, mais do que leve; o dia se torna encantado.

No caminho de volta, sentei, cansada e, inicialmente, sem disposição para conversas.
Mas, claro, ao sentar do lado de uma senhorinha, as primeiras palavras vieram imediatamente. E ao olhar a minha mochila, ela começou:

– Você estuda ou já acabou?

– Já acabei.

– E se formou no quê?

– Em publicidade.

– Ah!! Fugiu de curso rígido, né? Nada de física, matemática, biologia…

Eu ri e disse: É, prefiro as artes. Sou fotógrafa.

– Eu também gosto de artes, mas meu pai me obrigou a fazer medicina.
Ele era fazendeiro e dizia que me expulsaria de casa se eu insistisse na música.

– Poxa, que pena… mas, então, a senhora gosta de música?

– Sim. Eu sempre gostei de música. Ainda no colégio, só queria saber de compôr.

– Que legal!

– Posso cantar umas músicas minhas pra você?

E como negar?

Ao final da primeira, aplaudi baixinho.
Ela sorriu.
E engatou mais 4 músicas na sequência.
Achei tão bonito.

Ali, naquele ônibus cheio de pessoas cansadas e, aparentemente, pouco amigáveis; ali, onde quase ninguém olha no rosto do outro, eu estava sentada ao lado de alguém que cantava pra mim.

Depois do repertório e já perto do meu destino, perguntei o nome dela: Linda.

Não resisti a dizer:

– Ah! Que bonito, combina com você.

Com um sorriso no rosto, ouvi um obrigada e me despedi:

– Bem, eu vou descer aqui… foi um prazer te conhecer! Boa sorte com a música!

– Obrigada, boa sorte pra você também!

Agradeci, sorri e me encaminhei para a porta de saída.

Eu já estava de costas, quase descendo, quando escuto a voz dela:

– Sucesso! Você é linda!

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Mas Linda era ela.
Eu sou é sortuda.

:}

E segui sorrindo, com os lábios e o coração.

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A foto é daqui.

♥ Do meu coração

Basta estar de pé

Enquanto o sangue escorria do supercílio cortado pelo vidro do próprio óculos, o senhor me disse:

“Eu venho sempre aqui. Estou acostumado com o lugar e, justamente hoje, eu caí.”

Fiquei pensando nisso.
Nas palavras acompanhadas pela voz fragilizada e calma.
Pensei nesse “justamente hoje”.
(Será que hoje era um dia especial pra ele?)

Fiquei pensando na ingratidão da velhice.
Como podemos terminar a vida dessa forma? Tão frágeis. Tão dependentes.
Acho linda a velhice. Gosto das rugas, da pele fina, da experiência e sabedoria adquiridas.
Não acho justo esse fim.

Mas, velhos ou jovens, acostumados com o lugar ou não, basta estar de pé para cair.
E pode ser, sim, justamente hoje.

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A foto é daqui.

♥ Do meu coração

A dor é de quem tem

Quando os meus pais se separaram, eu tinha uns 17 anos. Pra mim foi quase tão normal quanto ir ao cinema. Assim, sem drama nem tragédia. Lembro que até insistia pra minha mãe se separar; que ela seria mais feliz sem aquele casamento; que não poderia ser normal viver brigando com o marido. No fundo, no fundo, só queria ver minha mãe feliz.
Mas, nossa… eu era tão imatura que tratava de assuntos do coração com a mais cruel das friezas. Tudo sem querer, claro.
Mas não sei até que ponto ajudei ou piorei a situação naquele momento.

Não lembro de ter havido um ponto final. Foram várias vírgulas ao longo do caminho que o fim mesmo desapareceu na história. Só sei que um belo dia, meu pai já não estava mais morando com a gente. E ok. Pelas minhas lembranças, eu e meus irmãos encaramos tudo com muita naturalidade.

Acho estranho.
É como se naquela época, eu não conseguisse enxergar a dimensão dos fatos.
E essa miopia me poupou do sofrimento.

Separação é morte. É dor avassaladora. É muito.
É enterrar o futuro. É viver o passado.
É tristeza; não só para o ex-casal, mas para as pessoas que os cercam, que admiravam aquele amor, que torciam pelo melhor.

Hoje percebo que para sofrer é preciso ser maduro. Estar pronto para receber a dor. Ter força suficiente para encarar a realidade e ter noção da profuncidade dos sentimentos.

Não é fácil. Sinto que demorei pra crescer; e ainda não sei dizer se prefiro os meus 17 ou os atuais 26.
Porque sim, é bom ter a consciência adulta.
Mas é tão ruim sentir como gente grande.

E hoje eu sinto.
Sinto muito.

Texto inspirado em 2 pessoas muito especiais que, ainda separados, são, para mim, um exemplo de casamento feliz e deixaram, como prova de amor, um dos bens mais preciosos da minha vida.